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quinta-feira, 12 de abril de 2012

Mano Brown - Marighella - Mil Faces de um Homem Leal (2012)



Mano Brown, é o autor da música que encerra o documentário Marighella. (Ele viu o filme inteiro três vezes, e não quis cobrar pelo trabalho. No final, comentou: 'Você não está fazendo este filme para seus pares, quem precisa de heróis é minha gente'), lembra a diretora Isa Grispum Ferraz.

Segue abaixo, a entrevista concedida por Mano Brown à Folha.

Folha: Por que aceitou o convite de participar de "Marighella"?

Mano Brown: O convite chegou através do movimento negro. Algum cara do rap já tinha me falado sobre ele, eu conhecia de longe, só a lenda, pois é algo de não sei quantas gerações atrás. Alguém me falou também que em algum detalhe ele parecia comigo. Na luta dele, na idéia. Somos os dois filhos de preto com italiano e minha família também vem da Bahia.

Folha: Quais os paralelos entre suas ideias?

Mano Brown: Marighella lembra Malcom X, lembra Public Enemy, lembra Racionais. Muito do que cantamos no rap provavelmente veio dele. Por exemplo, o conceito da violência contra a violência. A luta dele vem de uma época em que não podia ter eleição direta, toda hora tinha golpe. Ele foi proibido de correr pelo certo. Resolveu usar a força pois só isso resolveria.

Folha: Em que medida a luta dele se assemelha com a luta de hoje?

Mano Brown: Hoje temos um governo de esquerda. Se ele estivesse vivo, provavelmente estaria apoiando Dilma e Lula. Mas a luta continua a mesma. A direita está aí, as forças contrárias estão atuando.

Folha: Quais, por exemplo?

Mano Brown: O governo Alckmin é inimigo, é um governo racista de polícia, de repressão. A morte de pretos aumentou pra caramba sob sua gestão. A polícia na rua enchendo o saco e botando pressão onde não tem motivo.

Folha: E o Kassab?

Mano Brown: É outro inimigo. Desde que assumiu, o número de shows dos Racionais diminuiu muito. Tudo que ele faz hoje é contra a cultura negra, não deixa o povo tomar a frente. É um governo racista do caralho.

Folha: Muita gente andou estranhando ver os Racionais dando show em clube de playboy.

Mano Brown: É por falta de opção. Onde tem show dos Racionais a polícia fica pegando no pé, pedindo um monte de documento. Mas em certas baladas e boates, eles não entram.

Folha: Você foi enquadrado pela polícia recentemente no aeroporto. Como foi?

Mano Brown: Ridículo. Só neste ano, acho que fui enquadrado umas dez vezes. Os caras me reconhecem e param. Nesse enquadro do aeroporto o polícia me chamou pelo nome diante de um monte de gente, até repórter tinha.

Folha: Como enxerga a emergência da classe C?

Mano Brown: Tem um monte de gente comprando e consumindo. O pessoal vai atrás da aparência, compra roupa, telefone. Lógico que é necessário mas o principal está faltando: educação e instrução, e faculdade gratuita. Faltam bons motivos pra estudar. Única coisa que dá pra estudar, que dá resultado, é computador. O ensino está defasado e quem aprende outras coisas fica excluída, sem benefício nenhum.

Folha: E a cultura do consumismo?

Mano Brown: A gente sempre constestou isso. Somos contra várias marcas. O movimento nosso não tolera envolvimento, alianças e negócios.

Folha: Voltando ao filme, você assistiu? O que achou?

Mano Brown: O filme é ótimo. E tem um ponto de vista diferenciado, pois foi feito pela sobrinha dele. Hoje em dia Marighella é visto como herói mas na época não era assim. Achei que tinha que passar essa visão pros caras.

Folha: E a música que você compõe?

Mano Brown: Tentei não plagiar as coisas que li sobre ele. Tentei somar, não copiar. Traduzir a ideia dele pra rapaziada. Agora, eu não convivi com o cara, tentei projetar uma visão real sem sensacionalismo barato - o que tá difícil ultimamente.

Folha: Qual a relação dela com o contexto de sua obra?

Mano Brown: Tudo a ver. E agora estamos fazendo um novo disco. A maioria das músicas está pronta. Só que desta vez estou carregando meu piano, colocando os caras (demais integrantes do Racionais) na cara do gol: eles estão saindo mais na frente, estou ficando na contenção. Grupo é grupo.

Folha: Quando sai o novo disco?

Mano Brown: Pode ser neste ano. Mas o disco já não é mais tão importante, virou um cartão de visitas muito caro. Compensa mais por a música na rua, e isso a gente já está fazendo.

Folha: Que acha dos nomes que estão despontando, como Criolo e Emicida?

Mano Brown: Eles são muito bons, acima da média, mas o que não entendo é que tem três mil nomes pra falar e a mídia só fala em três. Ninguém dá espaço para gente que está aí faz tempo, como o Dexter ou Realidade Cruel. Acho que há um preconceito muito grande com o rap mais militante. É preciso conciliar esta nova geração com o rap mais combativo.

Folha: Algum recado para seus fãs?

Mano Brown: Não perder a resistência e se fechar na ideia de saber o que quer. Tomar cuidado com as informações rápidas e erradas. A impressão é que não existe coisa para conquistar. Ao mesmo tempo, protestar virou moda, tem que tomar cuidado pro protesto não ficar apenas entre aspas.

Direção: Daniel Grinspum

Caso interesse é possível conferir a informação diretamente na Fonte
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/961331-marighella-lembra-public-enemy-e-racionais-diz-mano-brown.shtml